terça-feira, 30 de março de 2010

LUNA LLENA




"La luna me está mirando
Yo no sé lo que me ve
Yo tengo la ropa limpia
Ayer tarde la lavé
Luna, luna, luna llena, menguante"
Verso da música Tonada de la Luna Llena,
de Simon Dias (Venezuela)
CD Fina Estampa, de Caetano Veloso





domingo, 28 de março de 2010

COLONO, POR QUE NÃO?

Um colono de Nova Prata ( foto de Arlindo Itacir Battistel)

Na minha infância, em Três Passos (uma cidade do Noroeste do Rio Grande do Sul, perto da fronteira com a Argentina), meu pai tinha uma daquelas casas de comércio que vendiam de tudo, de tecidos a alimentos. Os colonos do interior do município chegavam em velhos caminhões ou carroças para entregarem o que produziam e fazerem as suas compras, e depois ficavam no balcão, bebendo e dando gargalhadas a cada piada, a maioria contada em alemão.
Sempre me pareceram pessoas toscas, fadadas ao trabalho de sol a sol pela sobrevivência, vivendo em condições precárias.
Minha única experiência na lavoura, aos dez anos de idade, foi traumática: ao plantar aipim - no quintal da nossa casa cultivávamos laranjas, maçãs, moranguinhos, uvas, tomates, alface e sei lá mais quantas frutas, hortaliças e verduras - o cabo da enxada me deu calos nas mãos. Os calos infeccionaram e fui levado ao hospital para uma cirurgia dolorosa. Nunca mais peguei numa enxada...
Com o passar do tempo, o preconceito deu lugar à admiração por estas pessoas que vivem de plantar, colher, ordenhar, criar animais. Mas quem me explicou didaticamente a função social dos colonos foi o agrônomo e ecologista José Lutzenberger. Ele me chamou atenção para o fato de eles serem ecologicamente equilibrados. Produzem o que necessitam para se alimentar, e vendem o excedente para comprar o que lhes faz falta. Pouco ou nada sobra para supérfluos.
Vivem em harmonia com a natureza: o esterco dos animais vira adubo para a lavoura. Uma casa típica de um colono tem sempre uma ou mais vacas leiteiras, porcos e galinhas, hortas de verduras e hortaliças, árvores frutíferas.

Mas eles não vivem na Idade da Pedra. Na garagem há um carrinho ou uma camionete com muita quilometragem - as picapes zero quilômetro são privilégio dos grandes proprietários, que podem se endividar junto aos bancos. Substituídos por tratores, arados como o da foto que ilustra este post são cada vez mais raros. Tevês com antenas parabólicas mantém os colonos em contato com o mundo, por mais distantes que estejam das cidades. Em cada povoado as sociedades de canto, os clubes, os campos de futebol e as canchas de bocha garantem a diversão dos fins de semana.

São raros os empregados - todo o trabalho da propriedade é dividido entre os familiares. Há pobres, mas quase não se vê miseráveis.
Os pequenos municípios do sul do país, produtores de frutas como a uva e o morango, de fumo e de derivados de leite, estão entre os primeiros nos indicadores de qualidade de vida. Os índices de analfabetismo nas regiões de colonização alemã e italiana são próximos a zero, e a longevidade dos moradores é semelhante à da Itália e da Alemanha de onde vieram os seus antepassados.

Não dá vontade de ser colono?








domingo, 7 de março de 2010

O DIA DE ROSÂNGELA

Domingo, sete de março. Só se falava no Dia Internacional da Mulher, mas Rosângela, loirinha, olhos claros, 14 anos, tinha mais o que fazer. Passou a tarde pescando sardinhas na ponte do rio Tramandaí.
Limpou os peixes, colocou num garrafão e foi para a esquina da rua da Igreja com a Emancipação para vender, a seis reais o quilo. Às sete da noite, apesar de todo esforço, não havia vendido nada. Mas não desistiu. Precisa ajudar a família.
O verão para os pobres do Litoral é curto, e o inverno, interminável.
Amanhã, segunda-feira, volta para a escola. Está na quarta série, e sonha com um futuro melhor. Sardinhas, só aquelas de lata, no supermercado.




COMO ESQUECER CLÓVIS OTT?

A vaidade é um mal que afeta a todos os jornalistas. Ver o nome publicado no jornal, ser reconhecido na rua, ter um cargo de chefia, derrubar uma autoridade com aquela reportagem devastadora são formas de alimentar o ego para suportar tantas horas de trabalho, ganhando salários bem menores do que imaginam nossos amigos de outras profissões.
Em geral, a vaidade é controlável: depois da primeira demissão, ou de alguns anos comendo o pó da estrada, o jornalista se dá conta de que não é tão importante nem infalível quanto pensava. Mas todos conhecemos alguns casos de ególatras incuráveis.
Clóvis Camargo Ott, falecido em janeiro de 2006 aos 61 anos, vítima de acidente vascular cerebral depois de uma longa luta contra uma doença renal, era exatamente o contrário disso. Trabalhou no Diário de Notícias, na Folha da Manhã, para o qual cobriu a Revolução dos Cravos (levante que derrubou a ditadura salazarista, em 1974), no Correio do Povo, na Folha da Tarde e na Zero Hora. Viveu na Europa, atuando em jornais portugueses. Nos últimos anos foi assessor de imprensa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde editava, com outros jornalistas de primeira linha como Juarez Fonseca e Ademar Vargas de Freitas, o excelente Jornal da Ufrgs.
Apesar de ter sido um dos melhores repórteres de sua geração, não estava nem aí para o jogo de aparências que envolve a profissão.
Na Zero Hora, onde trabalhamos juntos na década de 80, ao ver aqueles grupos de visitantes do interior do Estado, costumava murmurar, em meio ao matraquear das máquinas de escrever: "quero pipoca, quero amendoim...", como se fosse um macaco de zoológico.
Achava divertido sermos três Clóvis na redação - ele, o Malta e eu. Nos saudava com um grito de guerra: "Clóvis! Tu chama um e aparecem três - que valem por seis!"
Não era incomum, mesmo à vista de editores ou do diretor, agraciar colegas com um sonoro tapa na bunda - coisa de criança travessa.
Cultivava o hábito de estar sempre ao lado dos amigos, tanto nas horas boas como nas más. Como quando fui demitido da Folha da Tarde, em outubro de 1980. À noite, sozinho em casa, soou a campainha. Era ele, com um garrafão de vinho, para me dar apoio.

Como esquecer um gesto desses? Como esquecer Clóvis Ott?