segunda-feira, 16 de abril de 2012

NUBECITAS


Sempre gostei de olhar para o céu em dias de sol para apreciar a passagem das nuvens e imaginar as formas que têm - animais, pássaros e o que mais surgir na minha imaginação. 
Criança, deitava no meio da plantação de mandioca ou de milho que havia no terreno da casa dos meus pais, em Três Passos, para olhar o céu e saborear o silêncio das tardes.  Plantações, numa casa? Não era uma casa qualquer: no quintal, enorme, tinha, além de hortaliças, legumes e verduras,  uma parreira onde em dezembro, depois da chuva, apanhávamos cachos de uvas fresquinhas, cheirosas. Cada estação oferecia as suas frutas: laranjas e bergamotas no inverno, maçãs no verão, morangos na primavera.


sexta-feira, 6 de abril de 2012

A MACONHA DA LATA

Este mar de águas límpidas e azuis da foto acima não é do Nordeste nem do Caribe! 
Acredite: durante dois a três meses por ano,  a costa do
Rio Grande do Sul - uma faixa de areia de 700  quilômetros sem baías nem penínsulas - fica livre das águas geladas e turvas vindas da Antártida.
A responsável por este milagre, que geralmente acontece entre fevereiro e abril, é a Corrente do Brasil, uma espécie de rio salgado de água morna  que atravessa o Atlântico e desce pelo litoral brasileiro do Nordeste até a fronteira com o Uruguai, quando toma novamente a direção da África.
Do outono até o início do verão, a água da costa brasileira, até a altura de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, é gelada por causa da Corrente das Malvinas.
O mapa abaixo mostra a movimentação das correntes marítimas pelos oceanos. 


                              Para ampliar o mapa, clique duas vezes sobre ele

Foi por causa da Corrente do Brasil que, no verão de 1988,  milhares de latas de maconha de altíssima qualidade,  com uma concentração de THC sete vezes maior do que a brasileira e a paraguaia,  prensada com mel e glicose, chegaram às praias brasileiras abaixo do paralelo 20. Era a carga do navio Solana Star, de bandeira panamenha, procedente de Cingapura. Seu destino era um porto dos Estados Unidos, mas em setembro de 1987, quando passava pelo litoral fluminense, teve problemas mecânicos e precisou de reparos. Temendo uma abordagem e prisão pelas autoridades brasileiras, que já teriam sido alertadas pela polícia norte-americana, seus tripulantes jogaram as 20 mil latas ao mar, a 100 milhas da costa, levaram o navio até o porto do Rio durante a noite e o abandonaram. Só o cozinheiro, o norte-americano Stephen Skelton, estava a bordo quando policiais federais invadiram a embarcação. Ele foi preso e condenado por tráfico.


Hermeticamente fechadas para conservar a qualidade do "produto", as latas de biscoitos com um quilo e meio de maconha começaram a chegar em janeiro às praias do Espírito Santo, do Rio e de São Paulo. Nas semanas seguintes, trazidas pela corrente marítima, chegaram ao litoral do Paraná,  de Santa Catarina e, por último, do Rio Grande do Sul. Desde aquele verão, a expressão "da lata" foi incorporada à gíria brasileira com o sentido de algo muito bom, especial, de primeira. 






O Solana Star foi apreendido e leiloado. Depois de uma reforma, transformado em pesqueiro, recebeu o nome de Tunamar, mas seu destino foi trágico:  naufragou ao largo de Cabo Frio em sua viagem inaugural, de Niterói a Santa Catarina, na noite tormentosa  de 11 de outubro de 1994. Dois tripulantes morreram e nove, que dormiam, ficaram desaparecidos dentro dele. Um triste fim para o navio que proporcionou à moçada da época um verão inesquecível: o verão da lata